Perícia · Publicado em 17 de maio de 2026

O que muda para o perito judicial na era da IA

A pergunta que recebo de advogados, e a resposta que não é reconfortante para nenhum dos lados.

Heron Simões Mattos — perito judicial em TI

Nos últimos meses, recebi de colegas e advogados uma variação da mesma pergunta: “Com tanta IA disponível para análise técnica, o perito judicial ainda vai ter trabalho?”

A pergunta é legítima. E a resposta não é reconfortante para quem quer apenas uma garantia. É mais complexa — e mais interessante — do que isso.


O que está mudando de fato

Não é especulação. O CNJ tornou obrigatório o Sisperjud — sistema nacional de perícias judiciais — para todos os tribunais a partir de julho de 2025. Plataformas comerciais já oferecem IA que importa o processo automaticamente, lê mil páginas de documentos, extrai quesitos e gera rascunho de respostas em minutos. Algumas anunciam redução de 50% no tempo de elaboração do laudo.

Isso é real. Eu uso tecnologia na minha prática pericial há anos, e entendo o que esses sistemas fazem — e o que eles não fazem.

A pergunta certa não é “a IA vai substituir o perito?”. A pergunta certa é: o que, especificamente, um sistema de IA não consegue fazer em uma perícia judicial — e o que isso significa para quem assina o laudo?


O que a IA faz bem na perícia

Ser honesto sobre as capacidades da tecnologia é parte do trabalho de quem atua nesse campo.

IA processa volume. Um processo com 1.200 páginas que levaria horas para localizar os quesitos relevantes pode ser mapeado em minutos. Isso é real e útil.

IA identifica padrões. Em análise de logs de acesso, comparação de metadados, detecção de inconsistências em planilhas, reconhecimento de assinaturas em escala — algoritmos treinados encontram o que o olho humano perderia no cansaço da décima hora de trabalho.

IA padroniza linguagem. Um rascunho de resposta a quesito técnico repetitivo — formatação ABNT, estrutura de laudo, citação de normativas — pode ser gerado automaticamente e revisado pelo perito, em vez de digitado do zero.

Tudo isso libera tempo. E tempo liberado é tempo que o perito usa para o que realmente importa.


O que a IA não consegue fazer — e nunca vai conseguir enquanto o processo for o que é

1. Assumir responsabilidade legal pelo conteúdo do laudo.

O perito judicial é um auxiliar do juízo. Sua nomeação é pessoal, seu compromisso é com a verdade sob pena de responsabilidade criminal, e sua assinatura é o que confere ao laudo força de prova qualificada dentro do processo. Nenhum sistema de IA pode ser nomeado perito, prestar compromisso ou responder penalmente por uma conclusão equivocada.

Quando o STJ decidiu, em abril de 2026, que relatório produzido por IA generativa não tem confiabilidade epistêmica mínima para ser admitido como prova, não estava apenas descartando um documento. Estava reafirmando que a credencial humana — treinada, responsável, auditável — é o que valida a conclusão técnica dentro do sistema jurídico.

2. Fazer o julgamento contextual que o processo exige.

Nos processos em que atuo, a pergunta mais importante raramente está nos quesitos formais. Está nas entrelinhas: o sistema apresentado pela parte realmente funciona como descrito? O log foi adulterado antes ou depois do incidente? A vulnerabilidade era conhecida ou foi introduzida intencionalmente? O contrato de software descreve o que foi efetivamente entregue?

Essas perguntas exigem experiência acumulada em tecnologia, entendimento do contexto jurídico específico e a capacidade de reconhecer quando algo não faz sentido — mesmo que os dados pareçam consistentes. IA não tem 35 anos de mercado. Não viveu a transição do mainframe para a nuvem. Não aprendeu a lógica de sistemas legados que ainda rodam em cartórios e repartições públicas pelo Brasil.

3. Resistir a um contraditório técnico qualificado.

O advogado tem o direito de impugnar o laudo e de fazer quesitos complementares. Um laudo gerado por IA sem perito que compreenda o método pode não sobreviver a uma impugnação técnica bem fundamentada — exatamente pelo argumento que o STJ já reconheceu: se você não sabe quais parâmetros foram usados, não pode defender a conclusão.

O perito que usa IA como ferramenta e domina o método está blindado. O perito — ou pior, a parte — que apresenta output de IA como se fosse análise técnica está exposto.


O que muda na prática para quem é perito em TI

A demanda por perícia em tecnologia vai crescer, não diminuir. Cada sistema de IA que entra em operação — em banco, em hospital, em tribunal, em processo seletivo, em decisão de crédito — é um potencial objeto de litígio. Cada contrato de software que não é entregue conforme especificado, cada deepfake que chega a um processo, cada alegação de fraude digital que precisa ser verificada: tudo isso exige um perito que entenda tecnologia com profundidade suficiente para ir além do relatório automático.

O que muda é o perfil do trabalho. O perito em TI que só sabia fazer análise documental manual vai perder espaço para quem usa as ferramentas com inteligência. O perito que entende IA — seus limites, seus vieses, sua opacidade — vai ocupar um lugar que nenhuma plataforma comercial consegue preencher: o do especialista que sabe quando a máquina está certa, quando está errada, e como explicar isso ao juiz de forma que resista ao contraditório.


A pergunta que separa os dois cenários

Existe uma diferença fundamental entre dois tipos de perito que vão emergir desse momento:

O primeiro usa IA para fazer mais rápido o que já fazia antes. Processa mais processos, entrega laudos no prazo, mantém honorários competitivos.

O segundo usa IA para fazer o que não era possível antes — e agrega ao resultado a interpretação, a responsabilidade e o julgamento que nenhum sistema consegue fornecer sozinho.

O primeiro vai competir com as plataformas. O segundo vai ser contratado justamente onde as plataformas falham.

Não é uma questão de tecnologia. É uma questão de posicionamento.


O que estou fazendo

Acompanho de perto o desenvolvimento de ferramentas de IA para perícia judicial. Uso tecnologia na minha prática para ganhar eficiência operacional. E me dedico a entender os limites técnicos de cada sistema — porque é exatamente ali que o perito humano tem valor insubstituível.

O processo judicial não perdoa conclusão sem método. O juiz precisa de alguém que assine, que explique e que defenda. A IA não faz nenhuma das três coisas.

Enquanto isso não mudar — e não vai mudar tão cedo —, o perito que entende tecnologia com profundidade vai ter mais trabalho, não menos.

Nenhum artigo trata de processo em que eu atue. Perito do juízo deve imparcialidade (arts. 466 e 467 do CPC), e texto público que antecipe tese sobre matéria pendente de laudo compromete o próprio trabalho. O que se escreve aqui é método, não caso.